Pular para o conteúdo
Peptídeos

Tesamorelina, gordura visceral e esteatose hepática em pessoas vivendo com HIV: mecanismos, evidências clínicas e perspectivas terapêuticas

18 de agosto de 2026 melissa 23 min de leitura
Tesamorelina e remodelação do tecido adiposo: mecanismos de ação, composição corporal, qualidade da gordura e evidências clínicas

A introdução e a ampla utilização da terapia antirretroviral transformaram o HIV em uma condição crônica, aumentando significativamente a expectativa de vida das pessoas vivendo com HIV. Entretanto, alterações metabólicas e de composição corporal permanecem importantes desafios clínicos. Entre elas, destaca-se o acúmulo de tecido adiposo visceral (TAV), particularmente relevante porque pode ocorrer mesmo quando alterações no índice de massa corporal (IMC) são discretas. O excesso de gordura visceral está associado a resistência à insulina, alterações lipídicas, inflamação metabólica e acúmulo ectópico de gordura no fígado.

A tesamorelina é um análogo do hormônio liberador do hormônio do crescimento (GHRH/GRF) desenvolvido para estimular de maneira fisiológica o eixo GH–IGF-1. Diferentemente de estratégias destinadas simplesmente à redução do peso corporal, seu principal efeito terapêutico é a redução seletiva da gordura visceral. Ensaios clínicos anteriores demonstraram reduções expressivas do TAV em pessoas vivendo com HIV e lipodistrofia. Mais recentemente, dados apresentados no IDWeek 2023 avaliaram especificamente pessoas em tratamento com inibidores da integrase (INSTIs), classe de antirretrovirais associada em determinados contextos a alterações de peso e composição corporal.

Na análise apresentada por McLaughlin e colaboradores, 61 participantes com HIV e doença hepática gordurosa associada ao HIV estavam em regimes contendo INSTIs. Após 12 meses, indivíduos tratados com tesamorelina apresentaram redução relativa de aproximadamente 8,3% no TAV, enquanto aqueles que receberam placebo apresentaram aumento de 10,8%. A fração de gordura hepática também diminuiu no grupo tratado com tesamorelina, com redução absoluta de 4,9% e redução relativa de aproximadamente 31% em relação ao valor basal. Esses resultados ocorreram sem mudanças significativas no IMC, reforçando a importância de diferenciar perda de peso global de remodelamento da composição corporal.

Os dados sugerem que a tesamorelina pode representar uma abordagem direcionada ao excesso de gordura visceral em determinados pacientes com HIV, especialmente quando a preocupação clínica está relacionada à adiposidade central e às consequências metabólicas associadas. Entretanto, seu uso exige avaliação médica individualizada devido à elevação do IGF-1, possibilidade de intolerância à glicose, retenção de líquidos e outras precauções descritas na bula.

Palavras-chave: tesamorelina; gordura visceral; HIV; lipodistrofia; tecido adiposo visceral; esteatose hepática; IGF-1; hormônio do crescimento; inibidores da integrase; metabolismo.


1. Introdução

O tratamento moderno da infecção pelo HIV modificou profundamente a história natural da doença. A terapia antirretroviral combinada permite controle virológico prolongado e reduziu substancialmente a mortalidade relacionada à progressão da infecção. Como consequência, questões metabólicas, cardiovasculares e relacionadas ao envelhecimento ganharam importância crescente na assistência às pessoas vivendo com HIV.

Uma dessas questões é a alteração da distribuição da gordura corporal.

O tecido adiposo visceral, localizado principalmente na cavidade abdominal ao redor dos órgãos internos, apresenta características metabólicas diferentes do tecido adiposo subcutâneo. Seu excesso está associado a maior atividade inflamatória, alterações na secreção de adipocinas, resistência à insulina e maior fluxo de ácidos graxos livres para o fígado.

No contexto do HIV, alterações na composição corporal podem ser particularmente complexas. A própria infecção, a exposição prolongada a diferentes classes de antirretrovirais, o envelhecimento e fatores relacionados ao estilo de vida podem contribuir para modificações na distribuição da gordura.

Além disso, nos últimos anos surgiu grande interesse sobre alterações de peso e composição corporal observadas em alguns pacientes após a utilização de regimes contendo inibidores da integrase. O problema não deve ser interpretado apenas pelo aumento do peso corporal. A distribuição desse peso e a proporção de tecido adiposo visceral podem ter importância metabólica própria.

É nesse cenário que a tesamorelina ganha relevância.

A molécula é um análogo do hormônio liberador do hormônio do crescimento e atua estimulando a secreção endógena de GH. Seu desenvolvimento clínico foi direcionado à redução do excesso de gordura abdominal visceral associado à lipodistrofia em pessoas vivendo com HIV.

O interesse científico pelo medicamento, entretanto, ultrapassa a simples alteração da circunferência abdominal. Estudos clínicos demonstraram efeitos sobre gordura visceral e parâmetros metabólicos, enquanto estudos posteriores investigaram sua relação com a gordura hepática.

Os resultados apresentados no IDWeek 2023 acrescentaram uma questão importante: a tesamorelina poderia reduzir o acúmulo de gordura visceral e hepática em pessoas vivendo com HIV que utilizam regimes contendo inibidores da integrase?


2. O que é a tesamorelina?

A tesamorelina é um análogo sintético do hormônio liberador do hormônio do crescimento, conhecido como GHRH ou GRF.

Seu objetivo farmacológico é estimular a hipófise a aumentar a secreção endógena de GH. O aumento de GH promove alterações subsequentes no eixo GH–IGF-1 e modifica o metabolismo de diferentes tecidos.

Essa característica é particularmente importante porque a tesamorelina não foi desenvolvida simplesmente como um medicamento para emagrecimento.

Sua indicação aprovada nos Estados Unidos é a redução do excesso de gordura abdominal em adultos vivendo com HIV que apresentam lipodistrofia. A bula deixa explícito que o medicamento não é indicado para tratamento geral de perda de peso.

A diferença é fundamental.

Uma intervenção pode diminuir o peso corporal principalmente por reduzir tecido adiposo subcutâneo, água ou massa corporal total. A tesamorelina, por outro lado, foi estudada principalmente pela capacidade de modificar a distribuição da gordura, com efeito particularmente importante sobre o compartimento visceral.

Essa característica torna o medicamento interessante para situações nas quais o IMC isoladamente não representa adequadamente o risco metabólico.


3. O tecido adiposo visceral

O tecido adiposo não deve ser considerado apenas um reservatório passivo de energia.

Ele funciona como um órgão endócrino e metabólico capaz de produzir moléculas sinalizadoras que influenciam inflamação, metabolismo da glicose, metabolismo lipídico e função vascular.

O tecido adiposo visceral apresenta associação particularmente forte com alterações metabólicas.

Quando aumentado, pode contribuir para:

  • resistência à insulina;
  • alterações dos triglicerídeos;
  • alterações da relação colesterol total/HDL;
  • inflamação de baixo grau;
  • maior fluxo de ácidos graxos livres para o fígado;
  • acúmulo de gordura hepática;
  • aumento do risco cardiometabólico.

No HIV, o acúmulo de gordura visceral também pode ocorrer dentro do contexto da lipodistrofia associada ao tratamento antirretroviral.

Estudos anteriores demonstraram que a tesamorelina pode reduzir seletivamente o tecido adiposo visceral sem produzir necessariamente uma grande redução do peso corporal total.

Esse ponto ajuda a compreender os resultados observados no IDWeek 2023.


4. Tesamorelina e o eixo GH–IGF-1

A ação da tesamorelina começa no eixo hipotálamo–hipófise.

De maneira simplificada:

Tesamorelina → receptor de GHRH → hipófise → aumento de GH → aumento de IGF-1 → alterações metabólicas e de composição corporal

A molécula atua como análogo do GHRH, estimulando a liberação fisiológica de GH.

O GH, por sua vez, exerce efeitos sobre a mobilização de gordura e influencia a produção hepática de IGF-1.

Esse mecanismo ajuda a explicar por que a tesamorelina pode modificar a composição corporal mesmo quando o peso total apresenta pouca alteração.

Nos estudos clínicos, o aumento de IGF-1 é uma consequência farmacodinâmica importante. Em um grande ensaio clínico inicial, a concentração de IGF-1 aumentou aproximadamente 81% no grupo tesamorelina, enquanto diminuiu no grupo placebo.

Portanto, o efeito terapêutico não ocorre de maneira independente do eixo GH–IGF-1. Ao contrário, ele é parte central do mecanismo de ação da molécula.


5. Evidências clínicas anteriores

O interesse pela tesamorelina surgiu antes dos estudos envolvendo os inibidores da integrase.

Em um ensaio clínico randomizado envolvendo 412 pessoas vivendo com HIV e acúmulo de gordura abdominal, participantes receberam 2 mg de tesamorelina ou placebo diariamente durante 26 semanas.

O tecido adiposo visceral diminuiu 15,2% no grupo tesamorelina, enquanto aumentou 5,0% no grupo placebo. Também foram observadas alterações favoráveis em triglicerídeos e na relação colesterol total/HDL.

Outro estudo de 12 meses, envolvendo 404 participantes, observou redução de aproximadamente 10,9% no tecido adiposo visceral após seis meses de tratamento, contra 0,6% no grupo placebo. Entre aqueles que continuaram recebendo tesamorelina, a redução chegou a aproximadamente 18% ao longo de 12 meses.

Um aspecto particularmente interessante foi observado quando o tratamento foi interrompido.

Os indivíduos que haviam obtido redução do tecido adiposo visceral e posteriormente passaram da tesamorelina para placebo apresentaram perda relativamente rápida dos benefícios obtidos.

Isso sugere que o efeito sobre a gordura visceral depende da manutenção da intervenção e não representa necessariamente uma alteração permanente do fenótipo metabólico.


6. Tesamorelina e gordura hepática

A relação entre gordura visceral e fígado é particularmente relevante.

O excesso de tecido adiposo visceral está associado ao aumento da disponibilidade de ácidos graxos e alterações metabólicas que podem favorecer o depósito de lipídios no fígado.

A esteatose hepática pode representar o início de um espectro que inclui inflamação, lesão hepatocelular e, em alguns indivíduos, progressão para fibrose.

Um estudo randomizado publicado no Lancet HIV avaliou o efeito da tesamorelina sobre doença hepática gordurosa em pessoas vivendo com HIV. O trabalho demonstrou que a redução do tecido adiposo visceral acompanhava alterações favoráveis na gordura hepática.

Esses resultados estabeleceram uma base importante para a análise posteriormente apresentada no IDWeek.


7. O contexto dos inibidores da integrase

Os inibidores da integrase, ou INSTIs, são uma das classes fundamentais da terapia antirretroviral moderna.

Medicamentos dessa classe incluem, entre outros, dolutegravir, bictegravir, raltegravir e cabotegravir.

Embora apresentem grande eficácia antiviral e sejam componentes importantes do tratamento contemporâneo do HIV, estudos observacionais e ensaios clínicos levantaram questões sobre alterações de peso e composição corporal em determinados pacientes.

O ponto mais importante é que aumento de peso e aumento de gordura visceral não são necessariamente fenômenos equivalentes.

Uma pessoa pode apresentar pouca mudança no IMC e, simultaneamente, apresentar modificações relevantes na distribuição da gordura corporal.

Foi justamente essa questão que motivou a investigação apresentada no IDWeek 2023.


8. O estudo apresentado no IDWeek 2023

O trabalho de McLaughlin, Stanley, Fourman e Grinspoon foi apresentado durante o IDWeek 2023, realizado em Boston entre 11 e 15 de outubro de 2023.

O estudo foi publicado posteriormente como resumo científico no Open Forum Infectious Diseases.

Os pesquisadores utilizaram dados de um estudo anterior randomizado e controlado por placebo que havia investigado a tesamorelina em pessoas vivendo com HIV e doença hepática gordurosa.

A análise específica do IDWeek concentrou-se nos participantes que utilizavam regimes contendo inibidores da integrase.

Dos 61 participantes analisados nesse subgrupo:

  • 30 receberam tesamorelina;
  • 31 receberam placebo;
  • 39 participantes do estudo original utilizavam algum INSTI;
  • o dolutegravir era o INSTI mais utilizado, representando 41% desse grupo.

Os participantes apresentavam doença hepática gordurosa, estavam em tratamento antirretroviral estável e tinham idade entre 18 e 70 anos.

As avaliações de composição corporal e gordura hepática foram realizadas no início e após 12 meses.

A composição corporal foi investigada por técnicas de ressonância magnética e espectroscopia por ressonância magnética.


9. Características dos participantes

Os indivíduos que utilizavam INSTIs apresentavam características metabólicas relevantes.

No grupo analisado, a idade média era aproximadamente 54 anos.

O peso corporal médio era de cerca de 92,4 kg, enquanto o IMC médio estava em torno de 31,1 kg/m².

A circunferência abdominal média aproximava-se de 110 cm.

O volume de tecido adiposo visceral era aproximadamente 235 cm², e a fração média de gordura hepática era de aproximadamente 13,5%.

Esses dados são importantes porque demonstram que o estudo não estava avaliando indivíduos metabolicamente normais submetidos simplesmente a uma intervenção estética.

Tratava-se de uma população com excesso de adiposidade abdominal e acúmulo significativo de gordura hepática.


10. O principal resultado: gordura visceral

O resultado mais relevante foi observado na evolução do tecido adiposo visceral.

Após 12 meses, o grupo placebo apresentou aumento de aproximadamente:

+10,8% de tecido adiposo visceral

Enquanto o grupo tratado com tesamorelina apresentou:

−8,3% de tecido adiposo visceral

A diferença entre os grupos foi estatisticamente significativa, tanto para a alteração absoluta quanto para a alteração relativa do tecido adiposo visceral.

Esse resultado é especialmente interessante porque o IMC não apresentou mudança significativa entre os grupos.

Em outras palavras:

o efeito sobre a composição corporal ocorreu sem uma grande alteração no peso corporal total.

Essa observação reforça uma das principais características farmacológicas da tesamorelina: seu objetivo não é necessariamente produzir grande perda ponderal, mas reduzir um compartimento específico de gordura metabolicamente relevante.


11. Gordura hepática

O segundo grande achado foi observado no fígado.

No grupo placebo, a fração de gordura hepática praticamente não se modificou durante os 12 meses.

A alteração absoluta foi de aproximadamente:

−0,1%

No grupo tesamorelina, entretanto, ocorreu uma redução de:

−4,9%

A diferença entre os grupos foi estatisticamente significativa. Além disso, os pesquisadores relataram redução relativa de aproximadamente 31% da fração de gordura hepática em relação ao valor basal no grupo tratado com tesamorelina.

Esse resultado amplia o interesse clínico da molécula.

O medicamento não parece atuar somente sobre a gordura abdominal visceral. Os dados sugerem que a redução dessa gordura pode estar acompanhada por uma diminuição da gordura acumulada no fígado.


12. Por que o IMC não contou toda a história?

O IMC é uma ferramenta epidemiológica útil, mas possui limitações importantes.

Ele não diferencia:

  • massa muscular;
  • gordura subcutânea;
  • gordura visceral;
  • gordura ectópica;
  • água corporal.

Por isso, duas pessoas com o mesmo IMC podem apresentar perfis metabólicos completamente diferentes.

No estudo do IDWeek, a ausência de alteração significativa do IMC poderia sugerir inicialmente que o tratamento não produziu uma mudança corporal relevante.

Entretanto, quando os pesquisadores analisaram diretamente o tecido adiposo visceral por imagem, surgiu uma diferença clara entre os grupos.

Isso demonstra a importância de avaliar composição corporal quando a pergunta clínica envolve gordura visceral.


13. Tesamorelina não é simplesmente um medicamento para emagrecimento

Essa distinção merece destaque.

A tesamorelina não deve ser interpretada como equivalente a medicamentos desenvolvidos primariamente para perda de peso.

Seu efeito estudado é direcionado principalmente ao tecido adiposo visceral.

A própria documentação regulatória norte-americana afirma que EGRIFTA SV é indicado para redução do excesso de gordura abdominal em adultos com HIV e lipodistrofia, e estabelece que o produto não é indicado para manejo da perda de peso.

Portanto, utilizar os resultados do estudo para afirmar simplesmente que “tesamorelina emagrece” seria uma simplificação inadequada.

O resultado cientificamente mais interessante é outro:

a tesamorelina pode modificar favoravelmente a distribuição da gordura, especialmente o compartimento visceral, mesmo sem grande redução do peso corporal total.


14. Possíveis implicações metabólicas

A redução do tecido adiposo visceral pode apresentar importância clínica porque esse compartimento está associado a diversos mecanismos metabólicos.

A diminuição do TAV pode teoricamente contribuir para:

  1. menor fluxo de ácidos graxos livres;
  2. melhora do ambiente metabólico hepático;
  3. redução de fatores associados à resistência à insulina;
  4. melhora de determinados parâmetros lipídicos;
  5. redução da adiposidade central;
  6. potencial redução de complicações relacionadas à gordura ectópica.

Entretanto, é importante diferenciar marcadores intermediários de desfechos clínicos definitivos.

Uma redução de gordura visceral não significa automaticamente redução comprovada de eventos cardiovasculares, mortalidade ou progressão de doença hepática em longo prazo.

A própria bula da tesamorelina ressalta que a segurança cardiovascular de longo prazo ainda não foi estabelecida.


15. Efeitos sobre o metabolismo lipídico

Os estudos iniciais com tesamorelina também encontraram efeitos favoráveis sobre alguns parâmetros lipídicos.

No ensaio publicado no New England Journal of Medicine, o grupo tesamorelina apresentou redução dos triglicerídeos e melhora da relação colesterol total/HDL em comparação com placebo.

Esses resultados são biologicamente plausíveis porque o tecido adiposo visceral está intimamente relacionado ao metabolismo dos lipídios.

Entretanto, a magnitude e a consistência desses efeitos podem variar de acordo com a população estudada, duração do tratamento e características metabólicas individuais.


16. Segurança e tolerabilidade

Apesar dos resultados promissores, a tesamorelina não é uma intervenção isenta de riscos.

Como atua estimulando a produção de GH e elevando IGF-1, existem efeitos farmacológicos que precisam ser monitorados.

Entre os principais pontos de atenção estão:

Elevação do IGF-1

A tesamorelina aumenta os níveis séricos de IGF-1.

A elevação persistente merece monitoramento, uma vez que as consequências de níveis cronicamente elevados de IGF-1 não são completamente estabelecidas.

Retenção de líquidos

Pode ocorrer retenção de líquidos, associada a manifestações como edema, artralgia e síndrome do túnel do carpo.

Alterações da glicemia

A terapia pode provocar intolerância à glicose e aumentar o risco de diabetes em determinados pacientes.

Por essa razão, a avaliação glicêmica antes e durante o tratamento é importante.

Neoplasias

Como o tratamento estimula o eixo GH–IGF-1, pacientes com malignidade ativa não devem receber tesamorelina.

A bula também recomenda avaliação cuidadosa em pessoas com histórico de neoplasia.

Hipersensibilidade

Reações de hipersensibilidade também foram descritas e constituem uma contraindicação em indivíduos com alergia conhecida à molécula ou aos excipientes.


17. Uma questão importante: o benefício é permanente?

Os dados disponíveis sugerem que a redução da gordura visceral não deve ser considerada necessariamente permanente.

Em estudos anteriores, pacientes que interromperam a tesamorelina após obter redução do TAV apresentaram recuperação de parte da gordura visceral perdida.

Esse fenômeno é importante para compreender a natureza do tratamento.

A tesamorelina parece funcionar como uma intervenção farmacológica contínua sobre o eixo metabólico, e não como um tratamento capaz de “reprogramar” permanentemente a distribuição corporal.

Isso significa que a duração do benefício, a necessidade de manutenção e a relação entre eficácia e exposição prolongada são aspectos fundamentais da decisão clínica.


18. O que o estudo do IDWeek acrescenta?

Os resultados apresentados em 2023 são particularmente interessantes por três razões.

Primeiro: população contemporânea

Grande parte dos primeiros estudos com tesamorelina ocorreu antes da ampla utilização dos inibidores da integrase.

O estudo do IDWeek avaliou indivíduos tratados em uma era na qual os INSTIs possuem papel central na terapia antirretroviral.

Segundo: gordura visceral em vez de apenas peso

O estudo demonstra que alterações importantes podem ocorrer na composição corporal mesmo sem modificação significativa do IMC.

Terceiro: associação com gordura hepática

A redução do tecido adiposo visceral ocorreu acompanhada por redução significativa da fração de gordura hepática.

Essa combinação é relevante porque estabelece uma possível ligação entre a modificação da adiposidade central e a melhora de um depósito ectópico de gordura metabolicamente importante.


19. Limitações das evidências

Apesar dos resultados favoráveis, é necessário interpretar o estudo com cautela.

A análise apresentada no IDWeek foi derivada de um estudo anterior e constituiu uma análise pós-hoc de um subgrupo.

Isso reduz a capacidade de estabelecer conclusões definitivas sobre todos os pacientes que utilizam INSTIs.

Além disso, o número de participantes foi relativamente pequeno.

O grupo analisado incluía apenas 61 pessoas, sendo 30 randomizadas para tesamorelina e 31 para placebo.

Outro ponto importante é que a redução de gordura visceral não equivale automaticamente à demonstração de benefício cardiovascular.

São necessários estudos maiores e com acompanhamento prolongado para determinar se a redução do TAV e da gordura hepática se traduz em redução de eventos clínicos importantes.

Também é necessário compreender melhor quais pacientes apresentam maior benefício e quais características predizem resposta ao tratamento.


20. Tesamorelina e doença hepática metabólica

A relação entre HIV, adiposidade visceral e doença hepática metabólica constitui uma área de crescente interesse.

A doença hepática gordurosa pode ocorrer com elevada frequência em pessoas vivendo com HIV e pode estar relacionada a obesidade, resistência à insulina, dislipidemia e distribuição anormal da gordura corporal.

Nesse contexto, uma intervenção capaz de reduzir simultaneamente gordura visceral e hepática possui interesse científico considerável.

Os resultados disponíveis sugerem que a tesamorelina pode produzir esse efeito em determinadas populações, mas ainda não é possível concluir que o medicamento previna progressão para fibrose ou cirrose.

Essa distinção é fundamental.

Reduzir a quantidade de gordura no fígado é um resultado biologicamente relevante, mas não representa necessariamente reversão completa de todas as formas de doença hepática.


21. Perspectivas futuras

O futuro da pesquisa com tesamorelina pode envolver uma caracterização mais precisa dos pacientes que apresentam maior benefício.

Algumas perguntas permanecem abertas:

  • Qual é o perfil metabólico ideal para tratamento?
  • Quais pacientes apresentam maior redução do TAV?
  • A magnitude da redução visceral prediz melhora metabólica?
  • A redução da gordura hepática reduz progressão de doença hepática?
  • O tratamento prolongado apresenta benefício cardiovascular?
  • Quais são os efeitos em pacientes com diferentes esquemas antirretrovirais?
  • Como a tesamorelina se compara a outras intervenções modernas para composição corporal?
  • Qual é a melhor estratégia para manutenção dos resultados?

Responder a essas perguntas será fundamental para definir o papel da molécula na medicina metabólica associada ao HIV.


22. Tesamorelina e o conceito de “qualidade” da perda de gordura

Um dos aspectos mais interessantes dessa literatura é a mudança de perspectiva sobre o que significa melhorar a composição corporal.

Tradicionalmente, o sucesso de uma intervenção metabólica é frequentemente avaliado pela redução do peso.

Entretanto, peso corporal é apenas uma medida agregada.

Uma redução de 5 kg pode ser clinicamente muito diferente dependendo de quais tecidos foram perdidos.

A tesamorelina representa um exemplo farmacológico de uma abordagem mais específica: modificar seletivamente um depósito adiposo considerado metabolicamente desfavorável.

Nesse sentido, os dados do IDWeek 2023 reforçam a ideia de que a localização da gordura pode ser tão importante quanto sua quantidade total.


23. Considerações clínicas

A tesamorelina apresenta uma característica bastante específica dentro do campo das intervenções metabólicas.

Ela não deve ser apresentada como uma solução universal para obesidade, nem como substituta de dieta, exercício, tratamento antirretroviral adequado ou controle dos fatores de risco cardiovascular.

Seu papel estabelecido está relacionado à redução do excesso de gordura abdominal visceral em uma população específica de adultos vivendo com HIV e lipodistrofia.

A utilização fora desse contexto deve ser avaliada com especial cautela, principalmente porque os resultados obtidos em estudos de HIV não podem ser automaticamente extrapolados para indivíduos sem HIV.

Além disso, o tratamento requer avaliação de contraindicações, glicemia, IGF-1 e outros parâmetros clínicos relevantes.


24. Conclusão

A tesamorelina representa uma abordagem farmacológica direcionada à redução do tecido adiposo visceral, diferenciando-se de estratégias cujo objetivo primário é simplesmente diminuir o peso corporal.

Os estudos clínicos anteriores já haviam demonstrado reduções significativas de gordura visceral em pessoas vivendo com HIV e lipodistrofia. Os resultados apresentados no IDWeek 2023 acrescentaram evidências particularmente relevantes para a era dos inibidores da integrase.

Entre os participantes avaliados, aqueles tratados com tesamorelina apresentaram redução de aproximadamente 8,3% no tecido adiposo visceral após 12 meses, enquanto o grupo placebo apresentou aumento de 10,8%. A fração de gordura hepática também diminuiu significativamente no grupo tesamorelina, com redução absoluta de aproximadamente 4,9% e redução relativa de aproximadamente 31% em relação ao valor basal.

O fato de essas mudanças terem ocorrido sem alterações significativas no IMC é particularmente importante. Ele demonstra que a avaliação da composição corporal pode revelar efeitos metabólicos que não são capturados por medidas tradicionais de peso.

Ao mesmo tempo, os resultados devem ser interpretados dentro de suas limitações. O estudo analisado foi uma avaliação pós-hoc de uma amostra relativamente pequena, e ainda não existem evidências suficientes para afirmar que a redução da gordura visceral e hepática produz, por si só, redução de eventos cardiovasculares ou melhora comprovada da sobrevida.

Portanto, a tesamorelina pode ser compreendida como uma ferramenta farmacológica especializada para uma alteração específica da composição corporal: o excesso de adiposidade visceral associado à lipodistrofia em pessoas vivendo com HIV.

Seu potencial científico reside justamente nessa especificidade.

Mais do que simplesmente reduzir números na balança, a tesamorelina demonstra que uma intervenção farmacológica pode modificar a distribuição da gordura corporal e, potencialmente, reduzir depósitos ectópicos metabolicamente relevantes, incluindo a gordura visceral e hepática.

O desenvolvimento de estudos maiores, prospectivos e de longo prazo será essencial para determinar até que ponto essas alterações anatômicas se traduzem em benefícios metabólicos e clínicos duradouros.


Referências

  1. McLaughlin T, Grinspoon SK, Stanley T, Fourman LT. Tesamorelin Reduces Visceral Adipose Tissue and Liver Fat in INSTI-Treated Persons with HIV. Open Forum Infectious Diseases. 2023;10(Suppl 2):ofad500.1334.
  2. Mascolini M. Tesamorelin reduces visceral tissue and liver fat in INSTI-treated persons with HIV. NATAP; IDWeek 2023.
  3. Falutz J, Mamputu JC, Potvin D, et al. Effects of tesamorelin (TH9507), a growth hormone-releasing factor analog, in HIV-infected patients with excess abdominal fat. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism. 2010;95:4291–4304.
  4. Stanley TL, Fourman LT, Feldpausch MN, et al. Effects of tesamorelin on non-alcoholic fatty liver disease in HIV: a randomised, double-blind, multicentre trial. Lancet HIV. 2019;6:e821–e830.
  5. Stanley TL, et al. Estudos clínicos sobre os efeitos da tesamorelina na gordura visceral e hepática em pessoas vivendo com HIV.
  6. Falutz J, et al. Effects of tesamorelin, a growth hormone-releasing factor, in HIV-infected patients with abdominal fat accumulation: a randomized placebo-controlled trial with a safety extension.
  7. EGRIFTA SV (tesamorelin) – Full Prescribing Information. U.S. Food and Drug Administration.
  8. Metabolic Effects of a Growth Hormone–Releasing Factor in Patients with HIV. New England Journal of Medicine.

Compartilhe este artigo:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *